sábado, 30 de novembro de 2013


CAPÍTULO 9  -   A LIGAÇÃO QUE  SALVOU NOSSO CASAMENTOCapítulo 9 | A ligação que salvou nosso casamento

Cristiane e eu nunca tivemos um casamento que alguém pudesse chamar de

conturbado. Ao contrário, vivíamos bem a maior parte do tempo. Quem nos via de fora

podia jurar que éramos um casal perfeito. Não vivíamos brigando, nunca houve traição,

e tínhamos os mesmos objetivos. Porém, de tempos em tempos, a cada quatro ou seis

meses, tínhamos uma grande discordância sobre algum assunto. Era como se a coisa

ficasse ruminando no estômago do nosso relacionamento por meses até que voltava à

boca e era vomitada; coisas que nunca haviam sido propriamente digeridas e

processadas entre nós; raízes de problemas que não conhecíamos e, portanto, nunca

haviam sido cortadas.

Às vezes a discordância era sobre ciúmes, ora sobre a minha falta de atenção a ela, ora

sobre o trabalho que fazíamos, ora sobre como me sentia desrespeitado por ela, e outras

vertentes. Tudo folhas e galhos. Não víamos as raízes dos problemas.

Quando tínhamos essas grandes desavenças, ficávamos horas trocando palavras dentro

do quarto. Às vezes os ânimos esquentavam. Ela chorava. E se levantava a voz, eu

levantava mais ainda. Chegava a um ponto em que cansávamos e então, pelo menos

para mim, o objetivo já não era resolver o problema, mas apenas sair daquela situação

desagradável. Contornávamos a situação, mas nada era resolvido. Eu ficava quieto com

ela por alguns dias e ela ficava com os olhos inchados de chorar. Tudo voltava ao

“normal”, pelo menos por mais uns quatro ou seis meses. E assim foram os primeiros

doze anos do nosso casamento.

Na minha cabeça eu pensava: “O problema é ela. Não estou fazendo nada de errado.

É ela que é cabeça dura e impossível de entender. Tenho que me manter firme nessa

linha porque eventualmente ela vai ter que ceder e mudar.” E não fazia segredo disso.

Várias vezes falei para a Cristiane: “Você é que é o problema! Eu estou bem, não estou

fazendo nada de errado. É melhor você se resolver aí com seus pensamentos porque não

tenho tempo para isso.” E ela respondia ora com lágrimas, ora com insistência no ponto

de vista dela.

Eu não estava querendo ser mauzinho. Realmente pensava daquela maneira. (Coisa

dura é estar sinceramente errado.)

Em um dia horrível — que se tornou belo — tivemos uma dessas brigas e a discussão

se prolongou mais do que o normal. Já era alta madrugada e não havia fim à vista. Até

que a Cristiane teve uma ideia: “Vou ligar para o meu pai.” Eu achei ótimo. Peguei logo

o telefone e dei na mão dela. “Liga agora! Você vai ver só como estou certo.”

Pelo que eu conhecia do pai dela, a quem respeito muito, e pelo assunto que estávamos

discutindo, tinha certeza de que ele iria confirmar que ela estava errada. Como ele nunca

foi parcial nem a ela nem a mim, eu o tinha como a voz da razão. Por isso, apesar da

vergonha e de não gostar de ter de levar aquele problema para ele, vi a decisão dela

como uma boa opção.

Saí do quarto e deixei que ela falasse com o pai. Passados uns cinco minutos, ela sai do

quarto, bem mais calma, me passa o telefone e diz: “Ele quer falar com você.”

— Sim, senhor — atendi.

Ele foi direto na jugular, em alto e bom som: “Renato, deixa eu falar uma coisa para

você. Esse problema aí É SEU. RESOLVA-O!”

Aquilo me pegou de surpresa. Não foi o que eu esperava. Achava que mostraria

empatia para comigo, que diria que havia falado com ela, e que agora ela me entenderia

melhor, e que eu teria que ter paciência com ela. Mas aquelas palavras “esse problema aí

é seu, resolva-o” funcionaram como um ferro de marcar gado na minha mente.

Ele não falou mais nada. Fiquei mudo, e depois de alguns segundos, respondi: “O

senhor pode ter certeza de que nunca mais receberá uma ligação como essa, porque eu

vou resolver.” Agradeci, e desliguei o telefone.

“Esse problema aí é seu, resolva-o.” As palavras ficaram ecoando na minha mente. De

repente, as escamas me caíram dos olhos. “Esse problema é meu. Eu é que tenho que

resolvê-lo!” Tudo começou a clarear.

Até então eu vinha batendo na mesma tecla, falando para a Cristiane: “Você é que é o

problema.” Aquele modo de pensar me fazia jogar o problema para ela e culpá-la pela

falha em resolvê-lo. Automaticamente, eu me isentava de culpa e “lavava as mãos”. Se

esse casamento falhar, não vai ser culpa minha, pensava. Essa mentalidade, além de me

fazer pensar que a responsabilidade não era minha, ainda piorava a situação de duas

maneiras: (1) deixava o poder totalmente na mão da Cristiane para fazer o que quisesse

da situação (desistir do casamento, lutar por ele, continuar como estava) e (2) dava a

ela a impressão de que eu não me importava com ela nem estava disposto a fazer nada

para mudar a situação.

Se ela fosse outro tipo de mulher, teria agarrado aquele poder que eu

inconscientemente pus nas mãos dela, juntaria o sentimento de desprezo que eu

transmitia com a minha atitude, e teria dado um fim ao nosso casamento. E hoje

entendo que eu teria sido o maior responsável. Por quê? Porque eu não teria cumprido o

meu papel de líder e cabeça no meu casamento.

O que aquela ligação me fez entender foi que, como marido, todo e qualquer problema

que acontece no meu casamento é meu problema também. Não posso separar alguns

problemas para mim e outros para minha esposa. Todos os problemas são nossos. Se

ela tem um problema, eu tenho um problema. Se ela está doente, eu estou doente. Se ela

tem uma reclamação, eu tenho que ver o que é, e agir rápido na fonte do problema —

mesmo que eu ache que aquilo é “coisa de mulher”. Esse conceito mudou minha visão

sobre nossos problemas conjugais.

Vejo que os homens, de forma geral, têm a tendência de jogar o problema para a

esposa e continuar vivendo a própria vida como se tudo estivesse normal. A natureza do

homem tende a fazê-lo evitar ou fugir da chateação da mulher. Por isso, quando

confrontado por ela com um problema, ele logo quer apontar o dedo de volta e sair da

conversa. Daí é que vêm os hábitos tipicamente masculinos de tirar o foco da mulher e

colocá-lo no trabalho, no futebol, na televisão, no video game etc., como uma forma de

escape. Esses homens precisam entender que evitar ou fugir do problema não vai

resolvê-lo. Repito, problema não é vinho.

O homem tem que tomar as rédeas da situação e, como um bom líder, buscar a

solução do problema junto com a esposa.

E foi isso que eu fiz imediatamente após aquela ligação.

A LISTA

Com a bênção do pai dela, e com a nova visão de que o problema era meu e que cabia

a mim resolvê-lo, entrei de volta no quarto com a Cristiane e fui pragmático: “Vamos

fazer uma lista de tudo o que está de errado no nosso casamento. Quero que você diga

todas as suas queixas, e vamos escrevê-las. Depois é a minha vez. Daí vamos trabalhar

juntos para eliminar cada item da lista.” E começamos.

O placar final foi 6 x 11, seis itens dela sobre mim, e onze meus sobre ela. Mais um e

eu dobraria a vantagem, ha ha... Mas o interessante é que quando sentamos para fazer a

lista, tivemos mais progresso em trinta minutos do que nos doze primeiros anos de

casamento. É incrível como o uso da razão é eficaz na solução de problemas,

especialmente no casamento. Aquele exercício foi um ato de lucidez, de inteligência, e de

emoção zero. Por esse motivo, os resultados foram positivos.

Não vou falar aqui quais foram os itens na lista, mas posso dizer que se resumiam em

duas categorias:

• Coisas ruins que não íamos mais fazer, que entristeciam ou feriam um ao outro;

• Coisas boas que íamos começar a fazer pelo outro, coisas que agradariam e fariam

a outra pessoa feliz.

Simples assim. Essa lista nos ajudou a parar de ficar olhando os defeitos um do outro e

começar a olhar para nós mesmos, para aquilo que tínhamos de fazer para melhorar o

relacionamento. Agora, com a lista, tínhamos uma meta clara e objetiva. Ambos

entendemos que se trabalhássemos juntos para eliminar cada item da lista, cada um

fazendo sua parte sem ficar apontando as falhas do outro, então não teríamos mais

aqueles problemas. E aquela perspectiva, de nunca mais passar por aquelas experiências

dolorosas a cada seis meses, nos motivou bastante. Eu estava determinado a fazer tudo

o que ainda não havia feito para resolver aquele problema de uma vez por todas. Afinal,

se nada fosse resolvido, o fracasso seria mais meu que dela, já que eu era o líder e cabeça

do meu casamento.

Porém, eu sabia que precisava de ajuda lá do alto. Não era suficiente somente confiar

nas minhas próprias habilidades, pois a lista era grande, dezessete itens, sem contar com

seus filhotes... Não ia ser fácil.

Por isso, lá pelas 2h30 da manhã, naquela mesma noite, quando terminamos a lista e

concordamos que trabalharíamos nela, eu pus a lista no bolso, entrei no carro e fui para

a igreja onde eu trabalhava. Não podia esperar amanhecer. Era agora ou nunca.

Entrei na igreja, tudo apagado, e me dirigi ao altar. Não havia ninguém lá, só eu e

Deus. Ali eu derramei a minha alma diante d’Ele. Admiti meus erros, pedi perdão, pedi

forças e direção para a minha vida e o meu casamento. Eu não aceitava que o que havia

acontecido no casamento de meus pais viesse a acontecer no meu. Jamais iria aceitar

aquilo, e por isso estava ali pedindo a Deus que colocasse a mão sobre mim e a

Cristiane. Levantei a lista para Ele e pedi ajuda. Foi uma verdadeira limpeza espiritual,

um momento muito íntimo e real que tive com Deus. Saí dali leve e fortalecido. Nada

ainda havia mudado na prática, mas na verdade tudo começou a mudar a partir dali.

Voltei para casa, abracei a Cristiane e dormimos juntos. Amanhã era outro dia. O

primeiro dia do nosso novo casamento.

As coisas não mudaram de uma vez, mas fomos nos dedicando. Não demorou muito.

Em algumas semanas, já percebíamos que nosso casamento havia renascido.

Ainda tenho essa lista e enquanto escrevia este capítulo fui dar uma olhada nela só de

curiosidade. Foi uma alegria ver mais uma vez que todas as metas que escrevemos um

para o outro já foram alcançadas, e muito mais. O círculo vicioso de problemas foi

quebrado; as raízes, cortadas.

É o poder de entender: “Esse problema aí é SEU. É você que tem que resolvê-lo.”

Agora que você entende isso, vou deixar a Cristiane contar no próximo capítulo como

foi a conversa dela com o pai durante e depois daquele telefonema, e como isso a

mudou.

Tarefa

A lista funcionou para nós, e tenho certeza de que pode funcionar para você. Muitas vezes

subestimamos o poder de escrever, de colocar algo no papel. Então, hoje eu quero encorajá-lo a

escrever a sua própria lista. Pergunte ao seu companheiro(a) o que o(a) faz ser uma pessoa difícil

de se lidar. Escreva uma lista, independentemente de como se sente. Se o seu companheiro(a)

estiver fazendo o mesmo, dê a ele a sua opinião para que possa escrever a sua lista também.

Importante: esta não é uma oportunidade para atacar o seu companheiro(a) ou para desenterrar

defuntos... Nem é hora de ficar na defensiva. O seu objetivo nessa tarefa é compilar uma lista de

coisas nas quais você começará a trabalhar para resolver em seu relacionamento. Sempre olhe

essa lista e vá agindo em cada ponto dela até terminá-la.

Decisão

A partir de agora vou trabalhar em cada item que acordei com meu cônjuge que precisamos

cumprir/eliminar. Estes problemas são MEUS, e eu irei resolvê-los.

 

 

CAPÍTULO 10  -   O SOL DO MEU PLANETA

 

Capítulo 10 | O sol do meu planeta

Cristiane:

Quando o meu pai atendeu ao telefone, tentei explicar a situação. Estava em prantos,

não conseguia nem falar direito, até porque quando falamos com nossos parentes sobre

problemas, aí é que nos desmanchamos ainda mais de emoção. Ele só ficou escutando

e, depois de alguns minutos, tudo o que disse foi: “Passa o telefone para o Renato,

deixe-me falar com ele.” Você já sabe o resto da história.

Aquele telefonema foi o ponto de partida para as mudanças em nosso casamento,

porém, o que realmente me levou a mudar foi a continuação daquela conversa que tive

pessoalmente com meu pai alguns dias depois. A lista que eu e o Renato fizemos

renovou o nosso compromisso de lutar para mudar e fazer o que fosse necessário para

agradar um ao outro. Mas dentro de mim havia um problema mais profundo, que nem
eu mesma sabia que existia.

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