sábado, 30 de novembro de 2013

CAPÍTULO 2


 CAPÍTULO 2 - É MAIS EMBAIXO

Capítulo 2 | É mais embaixo

Se eu fosse uma mosca na parede da sua sala ou de seu quarto quando você e seu

cônjuge estivessem discutindo algum problema, o que eu veria? Talvez uma frieza no

falar, grosserias, um tom de raiva nas palavras, irritação, um interrompendo o outro,

acusações, críticas e coisas assim. Em um dia vocês discordam sobre a disciplina dos

filhos, em outro dia sobre o porquê de o marido aceitar uma ex-namorada no Facebook

dele, em outro sobre a interferência da sogra no casamento. A questão é que o

verdadeiro problema não é aquilo que você vê. O problema é mais embaixo.

O marido tem um vício, por exemplo. A esposa o vê praticando aquele vício e pensa

que aquilo é o problema. Ela se irrita, o critica, tenta conversar e pedir para ele mudar,

mas nada muda. Por quê? Porque o vício não é o problema. Há uma raiz, algo mais

profundo que causa aquele vício. Ela não sabe o que é, possivelmente nem ele. Mas os

dois discutem em círculos sobre aquilo que veem.

Os problemas visíveis são apenas como folhas, galhos e troncos de uma árvore. Já as

verdadeiras causas são menos aparentes, difíceis de detectar e entender. Porém, a única

razão dos problemas visíveis existirem é a raiz que os alimenta. Se não houvesse raiz, a

árvore não existiria.

Quando você descobrir a raiz dos problemas no relacionamento, entenderá por que seu

parceiro e você mesmo fazem o que fazem. A luta contra as folhas e os galhos dos

problemas diminuirá — e muito —, bem como será amenizado o ambiente desagradável

que costuma se formar entre vocês. A eliminação de apenas uma raiz ruim resultará em

muitos problemas solucionados de uma só vez — e de forma permanente! Tal é o poder

da mudança de foco. Saber focar a atenção e a energia no verdadeiro problema pode

transformar seu casamento, pois tudo, inclusive nosso comportamento, depende de

como olhamos, para onde olhamos, e como interpretamos o que olhamos.

Stephen Covey menciona um acontecimento em sua vida que lhe ensinou a

importância disso.

Ele conta que um dia estava no metrô, sentado, e calmamente lia o jornal. O vagão

não estava cheio, tudo estava calmo, e havia alguns assentos vazios. Na parada em uma

das estações, entrou um pai com dois filhos muito travessos e se sentou ao lado dele. Os

garotos não paravam. Pulavam, corriam para lá e para cá, falavam alto, e

imediatamente tiraram a paz de todos no vagão. O pai, sentado e com os olhos

fechados, parecia não ligar para o que estava acontecendo. Covey então não resistiu à

indiferença do pai e, irritado, virou-se para ele e perguntou por que ele não fazia alguma

coisa para controlar os filhos. O pai, parecendo notar a situação pela primeira vez,

respondeu: “É verdade, desculpe-me. Saímos agora do hospital onde a mãe deles acabou

de falecer. Eu não sei o que fazer e parece que eles também não...” Covey se desculpou

e passou a consolar o homem. Imediatamente, toda a sua irritação contra o pai e as

crianças desapareceu e deu lugar à empatia.

Mas o que transformou o comportamento do antes irritado Covey? Foi a maneira que

ele passou a olhar a situação. Antes da informação dada pelo pai, Covey apenas olhava

a cena pelas lentes de seus valores e princípios. “Como pode um pai permitir que os

filhos sejam tão mal-educados? Se fossem meus filhos...” Mas depois da informação, sua

maneira de ver mudou tudo. Note que não houve alteração nas pessoas: as crianças não

pararam de se comportar mal, nem o pai fez nada para controlá-las. Apenas a ótica da

situação mudou e, com ela, o comportamento de Covey.

Assim também é no casamento. Julgamos o outro, exigimos que ele mude, pois o

vemos pelas lentes de nossas próprias experiências, valores e conceitos. Mas todo esse

conflito acontece porque não entendemos nem atentamos para o que realmente está por

trás de cada situação. Por isso, uma das primeiras atitudes que você deve tomar para

transformar a realidade do seu casamento é mudar a sua ótica — para onde você olha,

como olha, e como interpreta o que vê. O desafio é saber para onde olhar, pois nem

sempre a raiz é tão fácil de identificar assim. Deixe-me ajudá-lo, usando outra analogia.

UMA SÓ CARNE, DOIS CONJUNTOS DE PROBLEMAS

Quando duas pessoas se casam, ambos trazem para o relacionamento os seus

problemas e questões pessoais. O que você não vê no convite de casamento perolado são

coisas como:

“João – viciado em pornografia, sofreu muito com bullying quando criança,

extremamente inseguro – vai se casar com Maria – que foi abusada na infância, uma

bomba-relógio ambulante, disposta a qualquer coisa para sair da casa dos pais.”

O histórico dos noivos não vem escrito no convite de casamento — aliás, em lugar

nenhum. Mas ninguém casa sem trazer a sua bagagem para dentro do relacionamento.

Por exemplo, no caso deste casal, João e Maria, dá para ter uma ideia do provável

futuro da união?

No dia do casamento você só conhece de 10% a 20% da pessoa com quem está se

casando — na melhor das hipóteses — e a maior parte do que você conhece é apenas o

lado bom. Isso porque a maioria de nós sabe esconder muito bem os próprios defeitos

quando está namorando. Digo “esconder” não porque queremos intencionalmente

enganar a outra pessoa, mas por ser um processo natural da conquista. Faz parte do

cortejo colocar toda a força em dar uma boa impressão de si mesmo ao outro. Você

sempre coloca a melhor roupa, mede as palavras, se afasta para soltar gases, sai para

jantar em um bom restaurante... De fato, a cena típica do restaurante ilustra bem esse

ponto.

Ele escolhe o restaurante que você gosta, vocês sentam à mesa e pedem a comida.

Entre olhares de admiração um pelo outro, sobram elogios para o cabelo e a roupa, e os

dois aproveitam aquele momento ao máximo. No final, ele paga a conta sem reclamar, é

claro, e vocês saem felizes.

Depois de casado, a cena muda um pouquinho. O jantar já é na mesa da cozinha, sem

muitos enfeites. Ele comenta algo sobre o arroz não estar do jeito que ele gosta. E você,

pela primeira vez, percebe que ele faz um barulho irritante com a boca enquanto

mastiga... sem contar outros barulhos acompanhados de odores não tão agradáveis. Ao

terminar, você nota que ele nem ao menos leva o prato à pia, que dirá lavá-lo... É aí que

você se pergunta: “Como é que eu fui casar com esta coisa?”

Bem-vindos ao casamento! Agora é que vocês começam a se conhecer de verdade. E

com o conhecimento desse “novo lado” do casal, vêm os problemas.

Por essa razão, insisto aos que ainda estão noivos que sejam bem transparentes e

abertos com respeito a personalidades e passados durante o namoro, a fim de diminuir

as surpresas lá na frente. Não fiquem encantados com a outra pessoa como se ela só

tivesse o lado bom. Namoro é um período para descobrir tudo sobre a pessoa com

quem você irá se casar. Coisas como o passado do pretendente, a família, a criação que

teve, o relacionamento que tinha com os pais etc.

Casamento não é o lugar nem o tempo para surpresas sobre a outra pessoa. Não é

depois de seis meses de casado que a esposa quer descobrir, pela ex-namorada do

marido, que ele tem um filho. Não é na lua de mel que a mulher deve explicar ao marido

que, devido a um abuso que sofreu na infância, tem dificuldade de se entregar a ele

sexualmente. Quanto mais vocês souberem a respeito um do outro, menos chance

haverá de surpresas desagradáveis.

Uma vez aconselhamos um rapaz que nos procurou determinado a deixar a esposa

apenas semanas depois de casado. A razão que ele deu foi que descobriu na lua de mel

que ela não era virgem, como o havia induzido a crer. Ele se sentia traído por ela ter

omitido esse fato e também tinha dificuldade de superar a dor emocional de pensar que

ela havia tido relações sexuais com outros homens. O que para muitos pode parecer

uma besteira, para ele foi razão suficiente para considerar a separação. Foi com muito

custo que conseguimos convencê-lo a perdoá-la e vencer as emoções negativas. Eles

permaneceram casados, mas seus primeiros anos de casamento foram marcados por

sérios problemas.

Não é que o passado negativo de alguém seja motivo para você não se casar com ele

ou ela. Quem não tem esqueletos no armário, que atire a primeira pedra... Mas é

imprescindível que você esteja ciente de como o passado de vocês pode afetar o presente

e o futuro.

Considere, por exemplo, o quanto um marido cuja esposa sofreu abuso sexual quando

criança terá de ser paciente e compreensivo com ela. Para saber como, e se poderá lidar

com isso, ele tem de estar ciente de todo o quadro.

Quando duas pessoas se casam, os passados de ambas também se juntam. E são eles,

esses passados, que determinam o comportamento de cada um dentro do

relacionamento. Por esse motivo, você não pode olhar somente para a pessoa com quem

você está hoje, ainda que vocês já sejam casados há anos. Você tem que saber quem é

essa pessoa desde a sua raiz, de onde ela veio, quem ela é, quais as circunstâncias e

pessoas que a influenciaram e a fizeram ser a pessoa que é hoje — e tudo o que

contribuiu para isso. Somente assim você poderá entender bem a situação e agir com

eficácia.

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