CAPÍTULO 2 - É MAIS EMBAIXO
Capítulo 2 | É mais embaixo
Se eu fosse uma mosca na parede da sua sala ou de seu quarto
quando você e seu
cônjuge estivessem discutindo algum problema, o que eu veria?
Talvez uma frieza no
falar, grosserias, um tom de raiva nas palavras, irritação, um
interrompendo o outro,
acusações, críticas e coisas assim. Em um dia vocês discordam
sobre a disciplina dos
filhos, em outro dia sobre o porquê de o marido aceitar uma
ex-namorada no Facebook
dele, em outro sobre a interferência da sogra no casamento. A
questão é que o
verdadeiro problema não é aquilo que você vê. O problema é mais
embaixo.
O marido tem um vício, por exemplo. A esposa o vê praticando
aquele vício e pensa
que aquilo é o problema. Ela se irrita, o critica, tenta conversar
e pedir para ele mudar,
mas nada muda. Por quê? Porque o vício não é o problema. Há uma
raiz, algo mais
profundo que causa aquele vício. Ela não sabe o que é,
possivelmente nem ele. Mas os
dois discutem em círculos sobre aquilo que veem.
Os problemas visíveis são apenas como folhas, galhos e troncos de
uma árvore. Já as
verdadeiras causas são menos aparentes, difíceis de detectar e
entender. Porém, a única
razão dos problemas visíveis existirem é a raiz que os alimenta.
Se não houvesse raiz, a
árvore não existiria.
Quando você descobrir a raiz dos problemas no relacionamento,
entenderá por que seu
parceiro e você mesmo fazem o que fazem. A luta contra as folhas e
os galhos dos
problemas diminuirá — e muito —, bem como será amenizado o
ambiente desagradável
que costuma se formar entre vocês. A eliminação de apenas uma raiz
ruim resultará em
muitos problemas solucionados de uma só vez — e de forma
permanente! Tal é o poder
da mudança de foco. Saber focar a atenção e a energia no
verdadeiro problema pode
transformar seu casamento, pois tudo, inclusive nosso
comportamento, depende de
como olhamos, para onde olhamos, e como interpretamos o que
olhamos.
Stephen Covey menciona um acontecimento em sua vida que lhe ensinou
a
importância disso.
Ele conta que um dia estava no metrô, sentado, e calmamente lia o
jornal. O vagão
não estava cheio, tudo estava calmo, e havia alguns assentos
vazios. Na parada em uma
das estações, entrou um pai com dois filhos muito travessos e se
sentou ao lado dele. Os
garotos não paravam. Pulavam, corriam para lá e para cá, falavam
alto, e
imediatamente tiraram a paz de todos no vagão. O pai, sentado e
com os olhos
fechados, parecia não ligar para o que estava acontecendo. Covey
então não resistiu à
indiferença do pai e, irritado, virou-se para ele e perguntou por
que ele não fazia alguma
coisa para controlar os filhos. O pai, parecendo notar a situação
pela primeira vez,
respondeu: “É verdade, desculpe-me. Saímos agora do hospital onde
a mãe deles acabou
de falecer. Eu não sei o que fazer e parece que eles também
não...” Covey se desculpou
e passou a consolar o homem. Imediatamente, toda a sua irritação
contra o pai e as
crianças desapareceu e deu lugar à empatia.
Mas o que transformou o comportamento do antes irritado Covey? Foi
a maneira que
ele passou a olhar a situação. Antes da informação dada pelo pai,
Covey apenas olhava
a cena pelas lentes de seus valores e princípios. “Como pode um
pai permitir que os
filhos sejam tão mal-educados? Se fossem meus filhos...”
Mas depois da informação, sua
maneira de ver mudou tudo. Note que não houve alteração nas
pessoas: as crianças não
pararam de se comportar mal, nem o pai fez nada para controlá-las.
Apenas a ótica da
situação mudou e, com ela, o comportamento de Covey.
Assim também é no casamento. Julgamos o outro, exigimos que ele
mude, pois o
vemos pelas lentes de nossas próprias experiências, valores e
conceitos. Mas todo esse
conflito acontece porque não entendemos nem atentamos para o que
realmente está por
trás de cada situação. Por isso, uma das primeiras atitudes que
você deve tomar para
transformar a realidade do seu casamento é mudar a sua ótica —
para onde você olha,
como olha, e como interpreta o que vê. O desafio é saber para onde
olhar, pois nem
sempre a raiz é tão fácil de identificar assim. Deixe-me ajudá-lo,
usando outra analogia.
UMA SÓ CARNE, DOIS CONJUNTOS DE PROBLEMAS
Quando duas pessoas se casam, ambos trazem para o relacionamento
os seus
problemas e questões pessoais. O que você não vê no convite de
casamento perolado são
coisas como:
“João – viciado em pornografia, sofreu muito com bullying quando
criança,
extremamente inseguro – vai se casar com Maria – que foi abusada
na infância, uma
bomba-relógio ambulante, disposta a qualquer coisa para sair da
casa dos pais.”
O histórico dos noivos não vem escrito no convite de casamento —
aliás, em lugar
nenhum. Mas ninguém casa sem trazer a sua bagagem para dentro do
relacionamento.
Por exemplo, no caso deste casal, João e Maria, dá para ter uma
ideia do provável
futuro da união?
No dia do casamento você só conhece de 10% a 20% da pessoa com
quem está se
casando — na melhor das hipóteses — e a maior parte do que você
conhece é apenas o
lado bom. Isso porque a maioria de nós sabe esconder muito bem os
próprios defeitos
quando está namorando. Digo “esconder” não porque queremos
intencionalmente
enganar a outra pessoa, mas por ser um processo natural da
conquista. Faz parte do
cortejo colocar toda a força em dar uma boa impressão de si mesmo
ao outro. Você
sempre coloca a melhor roupa, mede as palavras, se afasta para
soltar gases, sai para
jantar em um bom restaurante... De fato, a cena típica do
restaurante ilustra bem esse
ponto.
Ele escolhe o restaurante que você gosta, vocês sentam à mesa e pedem
a comida.
Entre olhares de admiração um pelo outro, sobram elogios para o
cabelo e a roupa, e os
dois aproveitam aquele momento ao máximo. No final, ele paga a
conta sem reclamar, é
claro, e vocês saem felizes.
Depois de casado, a cena muda um pouquinho. O jantar já é na mesa
da cozinha, sem
muitos enfeites. Ele comenta algo sobre o arroz não estar do jeito
que ele gosta. E você,
pela primeira vez, percebe que ele faz um barulho irritante com a
boca enquanto
mastiga... sem contar outros barulhos acompanhados de odores não
tão agradáveis. Ao
terminar, você nota que ele nem ao menos leva o prato à pia, que
dirá lavá-lo... É aí que
você se pergunta: “Como é que eu fui casar com esta coisa?”
Bem-vindos ao casamento! Agora é que vocês começam a se conhecer
de verdade. E
com o conhecimento desse “novo lado” do casal, vêm os problemas.
Por essa razão, insisto aos que ainda estão noivos que sejam bem
transparentes e
abertos com respeito a personalidades e passados durante o namoro,
a fim de diminuir
as surpresas lá na frente. Não fiquem encantados com a outra
pessoa como se ela só
tivesse o lado bom. Namoro é um período para descobrir tudo sobre
a pessoa com
quem você irá se casar. Coisas como o passado do pretendente, a
família, a criação que
teve, o relacionamento que tinha com os pais etc.
Casamento não é o lugar nem o tempo para surpresas sobre a outra
pessoa. Não é
depois de seis meses de casado que a esposa quer descobrir, pela
ex-namorada do
marido, que ele tem um filho. Não é na lua de mel que a mulher
deve explicar ao marido
que, devido a um abuso que sofreu na infância, tem dificuldade de
se entregar a ele
sexualmente. Quanto mais vocês souberem a respeito um do outro,
menos chance
haverá de surpresas desagradáveis.
Uma vez aconselhamos um rapaz que nos procurou determinado a
deixar a esposa
apenas semanas depois de casado. A razão que ele deu foi que
descobriu na lua de mel
que ela não era virgem, como o havia induzido a crer. Ele se
sentia traído por ela ter
omitido esse fato e também tinha dificuldade de superar a dor
emocional de pensar que
ela havia tido relações sexuais com outros homens. O que para
muitos pode parecer
uma besteira, para ele foi razão suficiente para considerar a
separação. Foi com muito
custo que conseguimos convencê-lo a perdoá-la e vencer as emoções
negativas. Eles
permaneceram casados, mas seus primeiros anos de casamento foram
marcados por
sérios problemas.
Não é que o passado negativo de alguém seja motivo para você não
se casar com ele
ou ela. Quem não tem esqueletos no armário, que atire a primeira
pedra... Mas é
imprescindível que você esteja ciente de como o passado de vocês
pode afetar o presente
e o futuro.
Considere, por exemplo, o quanto um marido cuja esposa sofreu
abuso sexual quando
criança terá de ser paciente e compreensivo com ela. Para saber
como, e se poderá lidar
com isso, ele tem de estar ciente de todo o quadro.
Quando duas pessoas se casam, os passados de ambas também se
juntam. E são eles,
esses passados, que determinam o comportamento de cada um dentro
do
relacionamento. Por esse motivo, você não pode olhar somente para
a pessoa com quem
você está hoje, ainda que vocês já sejam casados há anos. Você tem
que saber quem é
essa pessoa desde a sua raiz, de onde ela veio, quem ela é, quais
as circunstâncias e
pessoas que a influenciaram e a fizeram ser a pessoa que é hoje —
e tudo o que
contribuiu para isso. Somente assim você poderá entender bem a
situação e agir com
eficácia.
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