sábado, 30 de novembro de 2013

CAPÍTULO 8


CAPÍTULO 8  -   “ O CASAMENTO NÃO DEU CERTO” 

Capítulo 8 | “O casamento não deu certo”

“Meu marido é um ótimo homem fora de casa. Trata todo mundo bem, é admirado

por todos. Mas comigo ele é um capeta”, desabafou uma esposa durante nossa sessão de

aconselhamento. As palavras dela ecoam as de muitas esposas e maridos que se frustram

em ver as duas caras de seus cônjuges. Esta síndrome das duas caras na verdade é

causada pela falha da pessoa em processar corretamente suas emoções negativas.

Quando não descarregamos as emoções de forma útil e positiva, elas vão se

acumulando e acabamos jogando tudo em cima do nosso parceiro. Conseguimos segurar

as emoções no trabalho porque pensamos que os estranhos não têm a obrigação de

aguentar nossas frustrações. Mas achamos, erroneamente, que nosso cônjuge, sim, tem

a obrigação de nos ouvir e entender, não importa como nos comportemos. Por esse

motivo, vomitamos todo o nosso lixo sobre o parceiro, sem aquela consideração que

temos com os estranhos. Somos educados com os de fora, mas dentro de casa somos

uma peste.

Não é preciso dizer que essa atitude vai desgastando o relacionamento, causando

profundas feridas, e assim muitos casais vão se distanciando e esfriando no amor.

Entenda uma coisa: a pessoa que você é em casa é quem você realmente é.

Pessoas com a síndrome das duas caras costumam se aprofundar ainda mais no erro

quando observam o seguinte: em casa, o parceiro está sempre infeliz e vive reclamando

do comportamento delas; mas fora, os amigos e colegas todos as apreciam e admiram

(porque não conhecem a outra cara). A conclusão a que chegam é: “O problema é meu

parceiro. Todo mundo gosta de mim, mas ela/ele não. Tenho que sair desse

casamento”.

Porém, o problema claramente não é o parceiro. Se elas o tratassem com a mesma

educação e consideração que tratam os estranhos, também teriam a admiração e

respeito do parceiro.

A pessoa que somos em casa é quem realmente somos. Por isso, mesmo se nos

divorciarmos daquela pessoa que achamos ser o problema, e nos casarmos com outra

que nos parece maravilhosa e nos admira tanto, esta pessoa também começará a ver

nossa outra cara e passará a fazer as mesmas reclamações que a primeira. Na verdade,

nós é que estamos errados. Muitos não enxergam isso e vão casando e descasando,

tentando achar “a pessoa certa”. O problema não é que não achamos a pessoa certa. O

problema é que não estamos fazendo as coisas certas dentro de casa com aquela pessoa.

Estamos agindo racionalmente com os de fora, mas emocionalmente em casa, jogando

nossas emoções negativas em cima de nosso parceiro.

Por essa razão, há muitos que são um verdadeiro sucesso no trabalho, mas um terrível

fracasso no amor.

CASEI COM A PESSOA ERRADA

Quando o relacionamento começa a dar errado e a pessoa não consegue que o parceiro

seja do seu jeito — alguém que aceite todo seu lixo emocional e atenda a todos os seus

caprichos —, então a conclusão óbvia vem a sua mente: “Casei com a pessoa errada.”

“O casamento não deu certo” ou “Casei com a pessoa errada” ou “Não somos almas

gêmeas” são expressões que nos isentam totalmente de culpa quando o relacionamento

destrambelha para o fracasso. O que aconteceu com o senso de responsabilidade?

Nos velhos tempos, um casamento fracassado era vergonha individual. Quando o casal

tinha problemas e alguém corria para a família ou amigos reclamando um do outro, o

conselho que geralmente ouviam era: volte, converse, e se resolvam. A mensagem era

clara: lute por seu casamento. Se o casamento fracassar, o fracasso é de vocês.

Hoje, quem dá os conselhos costuma tomar as dores da outra pessoa e dizer: “Como

ele ousa fazer isso com você? Você merece melhor, dê um chute nele!” “Tem mulher aos

montes por aí, por que você vai tolerar isso? Não deu certo com essa, pega outra!”

Quer dizer, a culpa é do casamento que deu errado, ou da outra pessoa por não ser a

“certa”. É a nova moda da transferência de culpa e da isenção da responsabilidade

pessoal em fazer o casamento funcionar. É como se o casamento fosse uma pessoa com

vontade própria que pudesse ser responsável pelo sucesso ou fracasso da união, ou como

se somente a outra pessoa pudesse garantir o casamento feliz.

Na verdade a culpa é dos indivíduos. Casamento não é uma pessoa. As pessoas dentro

do casamento é que são responsáveis pelo sucesso ou fracasso da união.

O MITO DA ALMA GÊMEA

Uma das coisas que tem ajudado as pessoas a se esquivarem de qualquer

responsabilidade pelo sucesso ou fracasso no casamento é o mito da alma gêmea. A ideia

é que todos temos uma alma gêmea, alguém que nos completará e nos fará
perfeitamente  felizes. Mas de onde surgiu essa ideia? Ela veio da mitologia grega.
 

De acordo com o mito, o ser humano originalmente tinha quatro braços, quatro

pernas, e uma cabeça feita de duas faces. Mas Zeus, o chamado todo-poderoso deus

grego, temia o poder dos humanos e os dividiu ao meio, condenando-os a passar o resto

de suas vidas procurando pela outra metade, que os completaria.

Desde então, a maioria das culturas tem romantizado a ideia de que cada pessoa tem a

sua alma gêmea, alguém que compartilha com ela uma afinidade profunda e natural no

campo afetivo, simpático, amoroso, sexual e espiritual. Este conceito implica que as

pessoas são as duas metades de uma alma e que devem se encontrar para serem felizes.

A lógica do mito faz com que eu pense, portanto, que se a pessoa com quem eu me

casei não me “completa”, não me faz feliz, não me compreende e não me faz sentir

como me sinto quando como chocolate, então ela não é a minha alma gêmea. Logo, é

em vão continuar no relacionamento tentando o que nunca será possível conseguir com

aquela pessoa (errada). A solução é se separar e continuar a busca pela alma gêmea (a

pessoa certa).

Depois de ler isso, talvez você ache esta história um tanto ridícula e inacreditável, mas

eu lhe afirmo: esse mito está profundamente enraizado nas mentes da maioria das

pessoas. Ele permeia grande parte das obras de dramaturgia, desde Hollywood até as

novelas, filmes infantis e livros românticos. Quem já não assistiu a uma cena típica de

filme onde a noiva entra na igreja, encontra com o noivo no altar, mas está cheia de

dúvidas porque sabe que aquela não é a sua “outra metade”? E todos nós,

telespectadores, somos levados a crer que, na verdade, a alma gêmea dela está ali entre

os convidados (ou no aeroporto prestes a pegar um avião e ir embora, dependendo do

filme que você viu), e ficamos torcendo que ela não faça a besteira de se casar com a

pessoa errada. De fato, ela finalmente vira e sai correndo, abandonando o pobre coitado

no altar para se unir à sua “outra metade”.

Até no meio cristão, apesar de não haver nenhuma base bíblica para esta crença de que

Deus teria criado uma alma gêmea para cada pessoa, muitos vivem orando para

encontrar a sua “cara-metade”... E ficam solteiros por muito mais tempo que deveriam

porque nunca estão certos se esta ou aquela pessoa é a certa, talvez porque não “rolou

aquela química”. Muitos vivem aterrorizados pela ideia de casamento. A dúvida e o

medo sempre presente: “Não sei se é ele/ela.”

O mito da alma gêmea ganhou grande aceitação em todas as culturas e até religiões

por ser muito romântico e atraente. A ideia de que existe apenas uma pessoa nesse

universo capaz de lhe completar, de que Deus criou uma pessoa só para você, é muito

bonita. (Parece que ninguém pensa: e se essa pessoa vive lá no Cazaquistão, por

exemplo?)

Não é difícil entender o que faz essa ideia tão irresistível. Ela elimina a necessidade de

esforço da nossa parte e nos isenta de responsabilidade quando o casamento não dá

certo. “Não era minha alma gêmea.” Pronto. A culpa não foi sua. Você apenas ainda

não achou sua cara-metade...

As pessoas não querem ter trabalho, querem as coisas prontas. É do caráter do ser

humano. Micro-ondas, café instantâneo, pílula para emagrecer... Felicidade num estalar

de dedos.

Nessa linha de pensamento, as pessoas agem emotivamente e não pela razão. Quando

estão passando por problemas crônicos no relacionamento, começam a pensar em jogar

a toalha. “Já tentei, mas não deu certo”. “Está muito difícil, não vou aguentar.”

Ora, o que fazemos no trabalho quando tentamos resolver um problema e

fracassamos? É claro, tentamos de novo. E se falhamos novamente? Seguimos tentando,

de várias maneiras, até achar a solução, porque dela depende a sobrevivência da

empresa e o nosso ganha-pão. Não desistimos. Não jogamos a culpa nos outros.

Assumimos nossas responsabilidades e saímos em busca da solução. Deixamos o que

sentimos de lado e usamos a inteligência, a criatividade e a perseverança para resolver o

problema. E se não conseguimos resolvê-lo, encontramos uma maneira de não deixá-lo

afetar o resto da empresa. Fazemos a devida compensação. Mas desistir? Jamais.

E mais: esse espírito de perseverança, de enfrentar os problemas sem medo e encontrar

uma solução custe o que custar, é a principal razão do sucesso de uma pessoa no seu

trabalho ou empresa. As pessoas de sucesso não fogem do problema - elas o enfrentam.

Sabem que todo desafio é proveitoso, todo problema apresenta uma oportunidade.

Então encaram as dificuldades com naturalidade, e passam a ser confiadas com mais

responsabilidades no trabalho, sendo promovidas a cargos maiores.

Quando você é conhecido no trabalho como a pessoa que resolve problemas, todo

mundo vai a você. Você é o cara. Todos sabem que se querem algo feito, tem que

colocar na sua mão. E isso vai lhe dando mais experiência, respeito, e você vai crescendo

como pessoa e dentro da empresa.

Por outro lado, quando você não toma a responsabilidade de resolver os problemas no

seu trabalho, mas fica dando desculpas, jogando a culpa nos outros, ninguém mais quer

lidar com você. Ninguém quer ouvir desculpas. Você não foi contratado para dar

desculpas, ficar apontando o erro dos outros ou se lamentando.

A Cristiane me desafiou a ser uma pessoa melhor. Tive que aprender a resolver

problemas que eu nunca havia encontrado antes. Tive também que reconhecer falhas e

ter a humildade de mudar. Mas fui perseverante, pois as mudanças não vieram rápido.

Tive que tentar de várias maneiras, e sempre resistir à ideia de desistir.

É isso que temos que fazer no casamento. O que você está aprendendo neste livro são

coisas que funcionam e podem transformar seu relacionamento e até você como pessoa.

Mas você não deve esperar uma mudança imediata, pois é preciso tempo para os frutos

começarem a aparecer. É um investimento a longo prazo, principalmente se você está

lutando praticamente sozinho(a) para salvar o casamento, e a outra pessoa está

endurecida ou cética de que você pode mudar. Não espere que só porque você começou

a agir diferente ontem, hoje a outra pessoa vai acreditar na sua mudança. É preciso

resgatar a confiança do outro. Seja constante. A outra pessoa precisa ver que a sua

mudança é verdadeira e permanente. Aceite o desafio — pelo casamento e por você

mesmo.

PESSOA CERTA VS. ATITUDES CERTAS

A chave para um casamento feliz não é achar a pessoa certa, é fazer as coisas certas.

Se você fizer o que é certo para o relacionamento, o casamento dá certo. Se fizer o que

é errado, dá errado.

Quando Deus criou o homem e a mulher, não os criou como “almas gêmeas”. Depois

de criar o homem, Deus decidiu criar uma auxiliadora3 para o homem, que o ajudasse.

Não falou nada de completar um ao outro, nem os colocou sob a responsabilidade de

fazer um ao outro feliz. Falou em ajudar. O casal deve se ver como auxiliadores um do

outro, pessoas que estão comprometidas em ajudar uma a outra. É claro que um

subproduto desta parceria é a inevitável felicidade dos dois, e a percepção de que os dois

são um só, uma só carne.

Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só

carne.4

Note bem que os dois se tornam uma só carne apenas depois que se unem. Não eram

“duas metades” antes de se casarem, como se já estivessem predestinados a se unir, não.

O milagre da fusão dos dois indivíduos acontece quando ambos se unem em um só

propósito de fazer o casamento funcionar, não importa o que vier.

É claro que se você ainda é solteiro (ou solteira) e está considerando alguém para se

casar, deve buscar a melhor pessoa que puder (não vá se casar com um psicopata e

achar, “com amor eu posso mudá-lo”). Mas a verdade é que um casamento feliz não

depende tanto da pessoa ser a “certa” quanto de que os dois façam as coisas certas.

O que faz o relacionamento funcionar é a obediência a certas leis de convivência.

Quando Deus criou o homem e a mulher, estabeleceu certas leis que regulam esse

relacionamento. Se vocês respeitarem essas leis, serão felizes. Senão, não há alma gêmea

que aguentará ficar com você.

O negócio com leis é o seguinte: você obedece, elas lhe protegem; você desobedece,

elas lhe punem. Se você pular de um prédio de dez andares, você certamente vai morrer.

A lei da gravidade se certificará disso. Se você for a um safári e sair do carro para tirar

uma fotinho com um leão, porque ele é tão fofo e parece tão bonzinho, provavelmente

vai virar o almoço dele. A lei da selva garante isso. Quer você creia nessas leis ou não,

está sujeito a elas.

As leis do relacionamento estabelecidas por Deus não são desconhecidas de ninguém.

Coisas como perdoar, tratar o outro como também quer ser tratado, ter paciência,

servir, ajudar, ouvir, não ser egoísta, falar a verdade, ser fiel, respeitar, ter bons olhos,

tirar a trave do próprio olho primeiro, cuidar, agradar etc., são básicas para que haja

um relacionamento. Isso é o que as pessoas sabem que tem que fazer, mas não fazem.

Quebram essas leis, e colhem as consequências disso.

Se você obedece às leis do relacionamento, elas lhe protegem; se você as desobedece,

elas lhe punem. Simples assim.

Não há outro caminho. Podem tentar culpar o casamento como instituição, facilitar o

divórcio, inventar relacionamentos alternativos, viver em busca da alma gêmea, mas a

única maneira de um relacionamento ser bem-sucedido é respeitando as leis que o

regem. E este poder está em suas mãos. É sua responsabilidade. Entender isso foi o

ponto decisivo em meu casamento — o que aconteceu durante uma ligação telefônica.

3 Gênesis 2:18

4 Gênesis 2:24





 
 
 
 
 

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